Naufrágios
famosos
O
naufrágio do Kursk
12
de agosto de 2000. Duas explosões no submarino nuclear
russo Kursk. As horas que se seguiram foram uma longa espera
pela morte.
Por:
Aldo
Monteiro
Edição:
Mathias
Carvalho
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O Kursk, antes do acidente |
O
gigante de 154 m de comprimento, 18 de boca, 9 de altura e deslocamento
de 18 mil a 23 mil toneladas tinha dois reatores nucleares e
podia mergulhar até 600 metros de profundidade. Construído
em 1992, foi comissionado em setembro de 1994. Pouco mais de
dois anos depois, a investigação do acidente que
matou seus 118 tripulantes encerrou-se com uma conclusão:
a explosão de um torpedo, abastecido com um instável
combustível experimental, segundo alguns especialistas,
ou defeituoso, segundo outros, detonou a munição
a bordo, com exceção de 22 mísseis balísticos
Granit.
O resultado derrubou a hipótese de um choque acidental
com um submarino espião americano, nunca comprovada,
cujo suposto sinal de SOS teria sido captado na hora do desastre.
Outra tese acabou também descartada: a de que a embarcação
afundou por "fogo amigo", atingida por um míssil
de um encouraçado nas manobras que participava. Fosse
qual fosse o motivo, o destino dos 23 homens no compartimento
9 estava selado. Mas seus cadáveres dariam contornos
reais à tragédia a bordo de um gigante inerte
nas profundezas geladas do Oceano Ártico.
Aos 21 anos de idade, o tenente Dimitri Kolesnikov era o oficial
mais graduado no grupo. Seguindo treinamento recebido na base
Fyodor Smuglin, no porto de Murmansk, ele assumiu o comando
logo após a última explosão, exatos 135
segundos depois da primeira. Gravações recuperadas
dos oscilógrafos de bordo - instrumentos que mostram
os movimentos do casco - indicaram terem sido cinco detonações,
sendo que em algumas, vários torpedos explodiram juntos.
Parte deste momento dramático vivido pela tripulação
no interior do Kursk foi contada no relato deixado por Kolesnikov.
Os fatos restantes emergiram dos escombros e das autópsias
realizadas depois que mergulhadores noruegueses e ingleses retiraram
os primeiros 12 dos 57 corpos recuperados.
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Local do acidente |
Num
dos bolsos do casaco do tenente havia uma lista com nomes dos
sobreviventes. Ao lado, marcas indicando que duas rodadas de
chamadas foram feitas, às 13h e às 15h. Kolesnikov
também escreveu breves comentários. Num deles,
sintomaticamente, dizia: "precisamos lutar por nossas vidas".
O primeiro passo foi descobrir se estavam sós. O interfone
fora da trava mostra que se tentou contato com os compartimentos
8, 7 e 6. Mas não poderia haver qualquer resposta. Aqueles
23 sobreviventes do compartimento 9 não sabiam que ocupavam
a única área intacta a bordo. Enquanto o primeiro
torpedo teria explodido no tubo de lançamento, amplificando
o estrago, a seqüência pulverizou os outros quase
ao mesmo tempo. Nos compartimentos mais próximos do arsenal,
como o 3, os peritos disseram ter encontrado apenas partes de
corpos.
O primeiro cadáver identificável só foi
achado no compartimento 5. "Nossos mergulhadores acharam
equipamentos e peças dos dois primeiros setores dentro
do quarto. Isso indica o poder do deslocamento, que rompeu paredes
e portas feitas para agüentar altíssimas pressões",
acrescentou o comandante da Marinha russa, Almirante Vladimir
Kuroyedov.
Os compartimentos aos quais o almirante se referiu ainda estão
no fundo do mar. Só a seção que vai da
base da torre à popa do Kursk foi recuperada. Os mergulhadores
encerraram sua missão fixando e cobrindo a proa no fundo
com redes, para evitar que correntes marítimas dispersassem
peças soltas. Também fincaram uma lápide
de mármore em homenagem ao comandante do submarino, capitão
Gennady Lyachin, e a sua tripulação. Havia previsão
de que o presidente russo, Vladimir Putin, ordenasse o içamento
também desta parte ainda em 2002, porém com o
inverno chegando, as condições do mar na região
tornam o trabalho impossível. A data definitiva ainda
não foi divulgada.
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Danos na estrutura |
Quando
as explosões ocorreram, a primeira decisão do
tenente Kolesnikov foi tentar controlar a pressão interna.
Ela teria de ser aumentada para impedir que vazamentos no casco
já detectados se ampliassem. Segundo os mergulhadores,
o manômetro da seção 9 marcava 0,6 kg/cm2
e havia entre 20 e 25 cm de água no compartimento. Alguns
dos mortos foram encontrados vestidos com roupas térmicas
reforçadas e usando equipamentos de mergulho, o que indicava
uma tentativa organizada de fuga. A 100 m de profundidade, a
aposta era de alto risco, embora melhor do que permanecer a
bordo à espera da morte. Mas se escapassem da hipotermia,
os tripulantes certamente sofreriam lesões nos pulmões
e outros problemas graves decorrentes da descompressão.
Após repetidas tentativas, os sobreviventes viram que
a escotilha de emergência estava emperrada. Teriam de
aguardar. Eles não sabiam que mesmo estando aberta de
nada adiantaria: quando um mini-submarino de resgate aproximou-se,
dias depois, seus tripulantes descobriram ser impossível
conectá-la à pequena nave para transbordar os
marinheiros, já que ela havia sido avariada pelas explosões
que sacudiram a estrutura do Kursk. A passagem só foi
aberta depois que maçaricos soltaram a trava empenada.
Era tarde demais, entretanto.
O desfecho de uma tragédia contado
pela medicina legal
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Mergulhadores noruegueses em resgate |
Examinando
os cadáveres de Kolesnikov e dos outros tripulantes do
Kursk, legistas notaram a ausência de glicogênio
(fonte de energia humana e reserva estratégica do corpo)
nos músculos e nos fígados dos mortos, onde normalmente
fica armazenada a maior parte. Era sinal de que haviam sido
submetidos a grande estresse, com as explosões e o impacto
no fundo. Porém no sangue, onde a concentração
é um pouco menor, as taxas de glicogênio estavam
acima do que seria normal naquelas circunstâncias. Enfim,
todos carregavam boa reserva de energia quando morreram. Na
tradução médica, isso mostrava um ambiente
de calma depois do susto.
Logo
após a explosão, a seção 9 do Kursk
fora iluminada por poucas lanternas, com carga preciosamente
economizada, já que luzes e energia de emergência
não funcionavam porque as baterias ficavam na proa. O
grupo não abateu, porém. "Não devemos
nos desesperar. Não podemos sair do navio, mas tenho
esperança de que seremos localizados e resgatados. Precisamos
ganhar tempo!", escreveu Kolesnikov, no escuro, em seu
breve diário. Os técnicos tentaram calcular quanto
tempo os 23 homens agüentariam e chegaram à marca
de dez dias. Porém, todos morreriam em menos de 20 horas.
Na
superfície, a operação de resgate patinava
num mar implacável e no caos provocado no governo russo
pelo acidente. Descobriu-se, tardiamente, que não havia
nenhum mini-submarino capacitado para um resgate dessa natureza.
O equipamento, emprestado, demorou a chegar e o mau tempo impediu
que fosse descido logo. Não bastasse, a tormenta atrasou
a missão dos mergulhadores e aumentou os riscos.
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Tamanho do Kursk, comparado a outros meios
de transporte |
Ainda
assim, havia esperança até se perceber que a escotilha
de emergência do submarino se abriu para um compartimento
já alagado. Um mês depois do naufrágio,
o alto-comando russo abortou a missão. Resgatariam apenas
corpos em áreas acessíveis. O almirante Kuroyedov,
em um encontro com o presidente Putin, recebeu a incumbência
de tirar o Kursk do fundo. Pressionado pelas famílias
dos tripulantes - que criticavam a lentidão do resgate
-, por governos vizinhos preocupados com possíveis vazamentos
de radiação dos reatores e ainda por militares
receosos que segredos estratégicos pudessem ser perdidos,
o presidente determinou que a ação fosse feita
a qualquer preço - em um ano a partir daquela data.
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Abertura da escotilha de emergência |
Enquanto
a contagem regressiva era discutida, no fundo do Mar de Barents
o compartimento 9 já era uma tumba coletiva, apesar da
probabilidade de sobrevivência ser de quase 15 dias. De
novo, o exame cadavérico elucidou o caso. A maior parte
dos corpos, incluindo o de Kolesnikov, não tinha ferimentos.
Traziam as faces rosadas e apresentavam a chamada crepitação,
enfisema subcutâneo que provoca um ruído quebradiço
quando o peito é pressionado. O primeiro elemento indicava
que as mortes se deram por excesso de monóxido de carbono
no ambiente; o segundo, que os corpos tinham sido submetidos
a um longo período em uma atmosfera de alta pressão
e estavam saturados com nitrogênio.
No outro grupo de corpos, a segunda tragédia. Três
deles tinham extensas queimaduras por combustão química.
Um perdeu todos os tecidos da cabeça, restando apenas
alguns músculos e o crânio. Em outro desaparecera
a parede abdominal, mas os órgãos internos estavam
intactos. Aparentemente, Kolesnikov os havia encarregado de
trocar a solução química que acionava o
regenerador de ar, tarefa fundamental para que pudessem esperar
pelo resgate.
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Diagrama do submarino, e local de refúgio
dos sobreviventes |
Os
peritos concluíram que um dos homens, por fadiga ou falta
de luz, deixou a lata com a solução cair no chão
molhado com água e óleo. Imediatamente um segundo
tripulante, num ato heróico, deitou-se sobre o recipiente,
recebendo a maior parte da reação química
decorrente da mistura no abdome. A tentativa de abafar a explosão
não funcionou. Além dele e dos dois outros, todos
os restantes morreriam em poucos minutos. A queima do fluido
regenerador consumiu todo o oxigênio disponível,
deixando em seu lugar uma enorme quantidade de monóxido
de carbono. Não houve tempo de vestir as máscaras
que haviam preparado para o abandono, ou de pegar a mangueira
contra incêndios.
No momento em que o compartimento 9 foi aberto, quinze dias
depois do naufrágio, ainda havia um pequeno colchão
de ar junto ao teto. O índice de oxigênio medido
ali foi de 7%, quando o mínimo sem perda de consciência
é de 12%. O tenente Kolesnikov e seus comandados estavam
fadados a morrer apesar da vontade inquebrantável de
se salvar: resistiram a uma série de explosões,
ao naufrágio do Kursk e não esmoreceram quando
se viram selados pela escotilha emperrada. Mas sucumbiram, ironicamente,
vitimados pelo purificador de ar, a mesma máquina que
deveria garantir sua sobrevivência até o resgate.
Missão [im]possível?
Faltava tirar o submarino do fundo para recuperar os outros
corpos. Um desafio que envolveu empresas de offshore do Mar
do Norte. O polêmico projeto foi desenvolvido pela holandesa
Mammoet Transport BV, especializada em transporte pesado, auxiliada
por três gigantes do setor, Heerema, Smit Tak - que fabricou
a serra gigante - e Halliburton. A operação consistia
em quatro fases: a separação, por meio de lâminas
elétricas, da seção de proa do submarino;
a perfuração de 26 pontos na estrutura dorsal
do Kursk; o içamento; e o reboque submerso.
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Plano de resgate - trabalho hercúleo |
A
escala dos equipamentos foi fora do normal. Só os dois
macacos hidráulicos usados para movimentar a serra submarina
mediam 13 metros cada um. Foram seis dias apenas para cravá-los
na posição correta, dos dois lados do casco. A
operação com a serra foi treinada várias
vezes pelos mergulhadores noruegueses em outro submarino da
mesma classe, o Oryol, no Porto de Murmansk. Enquanto isso,
a Mammoet preparava a peça-chave do processo: uma gigantesca
chata, a Giant 4, com 36 metros de altura e 114 de comprimento,
foi montada em Amsterdã a partir de quatro similares
menores. Ela recebeu, longitudinalmente, 24 elevadores hidráulicos
de grande capacidade. Em cada um, foi passado um cabo de aço
de alta resistência.
Após o corte, trabalho que demorou uma semana, os mergulhadores
iniciaram o segundo estágio, perfurando o casco do Kursk
para a fixação dos cabos. Cada um mereceu uma
tensão específica em função de sua
posição na estrutura, pois o que restara do submarino
estava ligeiramente adernado. Esta parte do trabalho demorou
mais tempo que o previsto. Foi encerrada no fim de agosto de
2001 e contribuiu para o atraso no cronograma. Com mar ruim,
os mergulhadores não podiam descer.
Feitos os furos, aguardou-se a chegada da Giant 4. Puxada por
dois rebocadores, a chata levou 12 dias para sair de Kirkeness,
na Noruega, e alcançar o ponto do resgate. Um a um, os
cabos de aço foram sendo descidos e afixados no Kursk.
Então, pouco depois da meia noite de um domingo, exatos
14 meses depois do naufrágio, os elevadores começaram
a içar, a dez metros por hora, o que restava do submarino.
Às 11 horas, veio um alerta de tempestade se formando.
No momento mais crítico de toda a ação,
foi dada a ordem para que os rebocadores puxassem a Giant 4
com o Kursk ainda a 40 metros de profundidade. Havia risco de
os cabos se partirem pela pressão. A chata e sua carga
demorariam 36 horas para vencer os 120 km até o Porto
de Roslyakovo.
O saldo da complexa operação foi positivo. Custou
US$ 130 milhões e durou 88 dias, 24 a mais que o previsto,
mas o submarino chegou suficientemente inteiro à doca
para ser periciado e permitir a retirada dos corpos. Não
houve vazamento de radiação dos reatores, que
se desligaram automaticamente na hora do desastre. Os 22 mísseis
balísticos Granit, cada um com 600 kg de TNT na ogiva,
puderam ser desativados sem que fosse preciso cortar os silos
onde se aninhavam - oito de cada lado e outros seis perto da
torre. Como parte do programa de desativação de
armas lançado em 1997 pelo Congresso dos Estados Unidos,
os últimos sete mísseis do Kursk foram destruídos
entre os dias 15 de outubro e 5 de novembro do ano passado,
em uma operação que consumiu sete toneladas de
explosivos.
Para reparar a perda, o Kremlin ofereceu para cada família
US$ 20 mil e pensão vitalícia
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