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Naufrágios famosos

O naufrágio do N. Senhora do Rosário e Santo André

Dando continuidade a série de tesouros afundados na Bahia, Zilan conta sobre o destino do Nossa Senhora do Rosário e Santo André, nau portuguesa naufragada no século XVIII.

Por: Zilan Costa e Silva
Edição: Mathias Carvalho

Gravura de época
Era 9 de maio de 1737; lá pelas 10 horas da noite, com tempo claro e sereno, deu fundo, neste porto de sua Majestade de Salvador da Baía de Todos os Santos, a Nau Nossa Senhora do Rosário e Santo André; havia feito longa travessia, vinha do Estado da Índia.

Nela agradeciam a boa ventura da jornada o seu capitão de mar e guerra, Antônio Jozeph de Miranda Henriques, toda a sua equipagem e passageiros.

Dia seguinte; calor se sentia por volta das 7 horas e meia da manhã quando já se encontravam a bordo o Patrão mor, com dez homens marítimos, na diligência de trazer para a sua amarração definitiva a Nau que estava de chegança boa aventurada.

Justamente neste exato momento - enquanto a equipagem lidava no convés principal, juntamente com os práticos locais, no mister da amarração da Nau - o fiel de meirinho João Barbosa se dirigia à praça de armas, com um outro camarada e dois negros, na azáfama de encher três frascos de vinho de caju de um barril que lá se encontrava - o vinho de caju é mais forte que a nossa aguardente.

Depois de ter despachado todos com os frascos cheios resolveu, por bem, encher mais um. Para melhor fazê-lo, decidiu mover o barril que, no movimento, acabou derramando um pouco da aguardente pelo chão. Subitamente, a aguardente atraiu para a si, na qualidade de ardentíssima, o calor da chama alífera da vela que João Barbosa se utilizava para alumiar.

No rosto de João Barbosa se marcavam linhas de horror e de pânico. Atabalhoado, na vã tentativa de apagar o fogo utiliza pés e mãos. Seu pavor o fez perceber-se que sufocaria com o fumo e, imediatamente, subiu para a salvação.

O que começara continuava; incendiara o barril de vinho, logo depois outro de pimenta que tinha os arcos alcatroados; o fogo comunicava-se com fardos que se encontravam por perto, tudo queimava com tremenda voracidade.

Nesse momento, um dos negros que o fiel de meirinho deixara para vigiar começou a gritar e todos acudiram abrindo o escotilhão e pequenos rombos
.

Finalmente recebia o fogo o ar que lhe faltava e com um grito ardeu imensamente, subiram labaredas em direção aos aposentos do capitão que se encontrava na primeira coberta; o fogo dilatava-se por todas as partes da Nau.

Do porto - sem mediar tempo - três tiros de canhão, bandeira abaixada; Sinal de perigo! O medo e a confusão se entranhavam profundamente nos embarcados.

Acolhiam, do porto e de outras embarcações vizinhas, escaleres. Buscava-se salvar tudo e tanto quanto possível; a Nau ardia com tal incêndio que de nenhuma sorte podiam forças humanas remediar, já se haviam lançado ao mar a maior parte da equipagem e dos passageiros, o calor era imenso. Por receio de sobrevir uma desgraça ainda maior, caso o paiol de pólvora se incendiasse, os escaleres permaneciam a uma certa distância, vigilantes.

Gritavam em desespero por socorro e piedade os que se fizeram à água. Ao clamor do fogo que ardia e aos gemidos da Nau candente se somavam os sons de dor e sofrimento, de pânico e histeria; compunha-se uma sinistra sinfonia de terror.

Gritavam em desespero por socorro e piedade os que se fizeram à água. Ao clamor do fogo que ardia e aos gemidos da Nau candente se somavam os sons de dor e sofrimento, de pânico e histeria; compunha-se uma sinistra sinfonia de terror.

De todos os embarcados e os que se fizeram ao mar, vinte e tantos, entre negros, brancos e um chinês, perderam a vida; alguns despedaçados pelos mastros e vergas que lhes caíram por cima.

Arqueologia subaquática
Queimadas as amarras a nau começou a subir com a enchente da maré. Em pouco tempo caiu toda a mastreação, e foi encalhar na praia da Jequitaia a quase uma légua da cidade.

O provedor mor, a mestrança da Ribeira e os capitães de outras Naus fizeram todas as diligências para levar à pequena enseada da Boa Viagem a Nau que ainda ardia! Mas, não dava lugar, a violência do fogo, onde lançar-se os arpões e somente às duas da tarde começaram a reboca-lo em direção à Boa Viagem!

Mas, não era para ser; principiava a vazar a maré, o casco da Nau demandava ainda mais água; encalhou, por fim, em um recife de pedras. Ardeu por toda noite exalando um cheiro acre de especiarias, madeira, tapetes e carne humana em um dos mais horrorosos espetáculos que se pode imaginar.

Foi lá, neste lugar, que o mergulhador Walter Andrade o reencontrou em 1975; foi lá que eu o vi a pouco tempo atrás!


TObs.: Não se entenda como negativa a utilização da palavra "negro" no contexto do texto. Tentou-se, somente, reproduzir um discurso de época. É assim como está descrito no relatório do Provedor-mor.


Serviço:


Mais informações sobre o naufrágio:
www.naufragios.com.br

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