Livros
No
coração do mar
Saiba
como ocorreu o naufrágio do navio que inspirou Herman
Melville para escrever o livro Moby Dick. Os detalhes do ataque
do cachalote enfurecido e o martírio de três meses
no mar de um grupo de sobreviventes amontoados em três
botes.
Por:
Aldo
Monteiro
Edição:
Mathias
Carvalho
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A
veracidade das narrativas confunde-se, por vezes, com as experiências
de vida dos próprios autores. Em 1820, após o ataque inesperado
de um cachalote enfurecido, o baleeiro "Essex" afundou no Pacífico
Norte. Nunca se imaginara que uma baleia pudesse reagir aos
pescadores que a perseguiam. O que se seguiu ao naufrágio foi
uma longa provação pelas águas do Pacífico: amontoados em três
botes, os marinheiros navegaram durante três meses, experimentando
os horrores da inanição e da desidratação, da doença, da loucura
e da morte, chegando à prática do canibalismo.
Owen Chase, primeiro-imediato e um dos oito sobreviventes do
"Essex", navio que serviu de modelo para o "Pequod", em Moby
Dick, escreveu um minucioso relato de 128 páginas intitulado
Narratives of the Wreck of the Whale-Ship Essex (Narrativa do
Naufrágio do Baleeiro Essex). O relato, escrito na primeira
pessoa, dramático e de força maior porque feito com a autoridade
de quem viveu os acontecimentos, foi a principal fonte de inspiração
de Herman Melville (ver mais abaixo), que o leu quando tinha
por volta de 20 anos. Esta obra passou a ser o mais importante
documento sobre a história real do navio baleeiro.
Conhecem-se
outros relatos de sobreviventes deste naufrágio, mas nenhum
tão importante e detalhado quanto o de Owen Chase. No entanto,
por volta de 1960, encontrou-se um livro de anotações guardado
no sótão de uma residência em Penn Yan, na cidade de Nova York.
Em 1980, o manuscrito chegou às mãos de um especialista da caça
à baleia, o qual, depois de muita investigação, descobriu ter
sido seu autor o camareiro do "Essex", Thomas Nickerson. Nickerson
tinha embarcado com apenas 14 anos e encontrava-se ao leme do
navio quando do ataque da baleia. Sobrevivente do ataque, voltou
a Nantucket, tornando-se dono de uma estalagem. Aos 71 anos,
instado por um dos fregueses aos quais narrava a tragédia do
"Essex", escreveu a história que, por vias tortuosas, foi parar
àquele sótão esquecido na povoação de Penn Yan, para vir a público
quase 200 anos depois dos acontecimentos narrado.
Foi
juntando os dados das narrativas de Chase e Nickerson e de estudos
posteriores, além dos próprios, que Nathaniel Philbrick (ele
próprio campeão de regatas) reuniu material para escrever In
the Heart of the Sea (No Coração do Mar, Europa-América, 2003,
vencedor do prêmio "National Book Awards" nos Estados Unidos
em 2000, categoria Não-Ficção). Nele é retratada a história
do "Essex" - a sua construção, as viagens anteriores, a formação
da sua tripulação para a última viagem, as relações humanas
a bordo e, sobretudo, da maneira como sobreviveram ao naufrágio
8 dos 21 pescadores embarcados. O livro relata o dia-a-dia dos
sobreviventes do naufrágio do navio baleeiro, forçados a recorrer
ao canibalismo e a sofrer os piores padecimentos em pleno alto
mar.
Três
aspectos significantes no livro: o contexto histórico da atividade
baleeira, sua brutalidade e a ganância desmedida do ser humano.
Depois, uma tragédia inimaginável: o naufrágio após o ataque
furioso de um cachalote de 8 toneladas, como um ato vingativo
da natureza, o qual serviu de inspiração para a obra Moby Dick
de Melville. Por fim, uma história de sobrevivência e morte
que nos faz refletir sobre a fragilidade da nossa condição social
e civilizada durante uma travessia considerada impossível: 2.500
milhas através do Pacífico em frágeis baleeiras e meses no mar.
É um livro que prende a atenção e fascina com sua linguagem
náutica; choca com a violência e detalhes de uma caçada às baleias
e ainda surpreende com situações impensáveis para nós que vestimos
todo dia a máscara da civilidade, derrubada nessa viagem pelos
instintos mais primários, claramente expostos quando os marinheiros
tiram a sorte para ver quem será o próximo a ser devorado pelos
companheiros! A sede e fome reveladas em proporções além da
nossa compreensão. Um livro indicado para aqueles que gostam
dos desafios do mar, mas sabem que o perigo é tão grande quanto
o fascínio que ele exerce sobre o homem. Às vezes muito maior.
Abaixo, um pequeno trecho do livro:
"No
dia 20 de janeiro, exatamente 2 meses após o naufrágio
do Essex, Richard Peterson declarou que era hora de morrer.
Quando Chase ofereceu a Peterson sua ração diária de pão,
ele recusou, dizendo: "Ela ainda poderá ser útil a alguém,
mas nunca para mim".
Pouco depois, Peterson perdeu a fala". (...) |
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