Naufrágios
famosos
Velhos,
mas bem conservados
No
Lago Ontário, palco da guerra de independência
americana, encontram-se dois dos mais bem preservados naufrágios
desta época.
Por:
Mathias
Carvalho
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| O
Hamilton, gravura de época |
O
Hamilton e o Scourge eram inicialmente conhecidos, antes de
serem anexados à Marinha durante a Guerra de 1812, como Diana
e Lord Nelson, respectivamente - ambos eram pequenas embarcações
mercantes, construídas para suprir o transporte de mercadorias
entre pequenas fábricas e centros comerciais.
No porto de Sackets, ambas as embarcações foram armadas, apesar
de serem inadequadas para tal - seus deques eram muito expostos
e com área limitada, e a capacidade de sustentar fogo inimigo
era muito pequena. Esta situação era ainda mais dificultada
pelo fato de não haver acomodações suficientes para toda a tripulação,
forçando as equipes de canhoneiros a dormirem no deque, junto
aos canhões. As cabines existentes foram adaptadas e diminuídas,
comparadas a "caixões flutuantes" pelos marinheiros - muitos
consideravam-nos "caixões flutuantes", impressão esta que se
confirmaria mais tarde.
Estes
problemas com embarcações mercantes convertidas em navios de
guerra eram muito comuns, mas por simples falta de opção, a
marinha tinha que utilizar os recursos que tinha à disposição.
Naufrágio rápido e imprevisível
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Pausa para o café |
O
as águas lago estavam calmas, e o céu estava limpo naquela noite.
O Scourge lançou âncora junto com a flotilha, para que os marinheiros
pudessem se recuperar após uma jornada difícil.
O
capitão Osgood, visto que os ingleses estavam por perto e a
noite estava calma, não mandou sua tripulação prender os canhões
- como era de costume - para que pudessem ser utilizados a qualquer
momento, determinou que encarregadas jantasse e dormisse perto
de suas armas, para qualquer eventualidade.
A embarcação estava com a vela mestra desfraldada, mas todas
as demais estavam recolhidas, uma medida de precaução tomada
pelo fato da estrutura ser relativamente frágil.
Durante a noite, uma chuva leve começou a cair, mas a tripulação
não se incomodou com o fato. De repente, um vento forte começou
a soprar e raios começaram a lampejar, sem qualquer aviso prévio.
Em meio a trovões, o lago começou a tornar-se revolto e a embarcação
começou a adernar fortemente.
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| Figura
de proa |
Em
menos de um minuto, recontam os sobreviventes, a água já estava
no deque e, em meio à tempestade repentina, ouvia-se os lamentos
dos marinheiros presos entre os canhões, que se soltaram e deslizaram
livres, causando estragos e acelerando o naufrágio do Scourge.
Enquanto a embarcação adernava, os sobreviventes escalavam os
mastros na tentativa de escaparem da sina de seus companheiros
que estavam presos nos deques inferiores.
Neste
instante, a embarcação endireitou-se mas, como já estava cheia
de água, começou a afundar num redemoinho, sugando os tripulantes
que não haviam saltado para a água momentos antes.
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| A
âncora do Scourge |
Em
meio à tempestade, as águas do lago carregaram o Scourge para
o fundo, tudo em poucos minutos.
Durante toda a noite, o restante da flotilha ocupou-se em resgatar
sobreviventes e manter-se a salvo do desastre. Pela manhã, constatou-se
que, além do Scourge, o Hamilton também tinha sofrido o mesmo
destino.
Como havia sido previsto, o Scourge e o Hamilton tornaram-se,
de fato, caixões, para a maioria de suas tripulações.
Redescobrimento
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| Croqui
di Hamilton - boa preservação |
Em
1971, um arqueologista amador de Ontário, o Dr. Daniel A. Nelson,
utilizou as marcas registradas pelo comodoro Yeo no diário de
bordo do Wolfe e testemunha ocular do evento, para determinar
a provável localização do Scourge e do Hamilton e delimitar
a área de pesquisa.
A procura em si foi realizada nos Grandes Lagos, notórios pela
coleção de naufrágios preservados (leia nossa matéria sobre
o Lago Champlain) com a
ajuda de tecnologia side-scan
(que capturaram o relevo dos naufrágios) e magnetômetro (detectando
massas de metal provenientes dos canhões).
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| O
T.R.O.V. |
Acompanhado
do Dr. A. Douglas Tushingham, do Royal Ontario Museum, iniciou
o Projeto Hamilton-Scourge, que atraiu outros cientistas, como
o Dr. Peter Sly do Canada Centre for Inland Waters.
Em Novembro de 1975, com o uso de um Tethered Remote Operated
Vehicle (TROV), capturou-se as primeiras imagens dos restos
do Hamilton, incluindo o casco, destroços, balas de canhão e
ossadas. Tudo indicava que as águas frias do lago haviam preservado
os naufrágios intactos.
Naquela época, os dois naufrágios ainda eram considerados como
propriedade da marinha americana. Em 1978, o congresso americano
concordou em transferir os direitos de propriedade para, inicialmente,
o Royal Ontario
Museum, e depois para a cidade canadense de Hamilton.
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| Mosaico
de fotos do Hamilton, em seu atual estado, no fundo do
lago |
Um
pesquisador ilustre, Jacques Cousteau, também visitou os dois
naufrágios a bordo de seu mini-submarino, o Soucoupe. Numa ação
conjunta com a National Geographic Society e a Hamilton-Scourge
Foundation (criada oficialmente pela cidade de hamilton), mais
de 1.900 fotos e 26 horas de vídeo foram obtidas no sítio.
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| Canhão
- ainda de prontidão |
Toda
a pesquisa realizada permitiu aos exploradores determinar as
condições de ambas as embarcações:
- ambas encontram-se a aproximadamente 90 metros de profundidade.
- encontram-se sobre o fundo de argila do lago, que é relativamente
uniforme nesta área.
- os naufrágios encontram-se a aproximadamente 450 metros de
distância entre si.
- quando ainda na superfície, as embarcações adernaram a bombordo
e, uma vez submersos, lastreadas pelos armamentos, retornaram
a suas posições iniciais e, levadas pela ação de correntes no
velame, pousaram no leito do lago.
- dada a baixa temperatura e a ausência de elementos destrutivos
como sal na água e luz, a preservação dos restos ocorreu nas
melhores condições possíveis.
Os registros realizados pelas equipes de Cousteau, da NGS e
diversas outras permitem uma visão clara do futuro destes naufrágios,
e planos para estudos adicionais estão sendo elaborados.
Tradição naval forjada com pólvora
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| O
USS Constitution na ativa |
Pelo
Tratado de Paris (1763), as colônias francesas no Canadá passaram
para a coroa inglesa. Os Grandes Lagos tornaram-se palco de
conflitos navais, pois estavam entre as fronteiras dos EUA recém-independente
e seus antigos dominantes, a Inglaterra.
A "Guerra de 1812" é um importante marco da história americana,
mas pouco lembrado, pois foi quando os Estados Unidos confirmaram
sua independência como nação, frente a Inglaterra. Durante dois
anos, iniciando e encerrando num impasse, pois os EUA falharam
na sua ofensiva contra o Canadá (com quem tinham diferenças
fronteiriças) mas, no processo, conseguiram impedir que o Exército
Inglês capturasse as cidades de Baltimore e Nova Orleans; estas
vitórias no mar, alcançadas após conflitos na "Guerra Quasi"
(vide abaixo) confirmaram o poderio de uma marinha que até hoje
é uma das maiores do mundo.
A "Guerra Quasi" foi iniciada a partir de um conflito não-declarado
entre a França e os Estados Unidos, realizado inteiramente no
mar, entre 1791 e 1801.
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| Sabre
de abordagem - batalha interrompida |
A
pirataria realizada no mar Mediterrâneo fez com que o Congresso
Americano decidisse construir sua marinha, para garantir o comércio
marítimo americano. Pouco tempo depois, depredações causadas
por embarcações corsárias da "França Revolucionária"
fez com que o congresso americano aprovasse o envio de esquadras
de navios da marinha para impedir estas ações, até que a França
concordasse com um tratado que encerrasse as animosidades. A
guerra em si começou em 1798, quando os EUA rescindiram tratados
com a França.
Uma das primeiras embarcações construídas para integrar esta
flotilha naval americana foi o USS Constitution, mais conhecida
como "Old
Ironsides", que ainda hoje encontra-se em serviço ativo
nos Estados Unidos (esta fragata é a mais antiga ainda em condições
de navegação, lançada em 1797, logo antes do início do conflito
com a França).
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