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Naufrágios famosos

O naufrágio do Galeão Sacramento

A Bahia tem lindas praias, boa comida, e uma preguiça já imortalizada. Mas poucos se lembram dela pelas suas riquesas submersas. Este galeão é uma delas.

Por: Zilan Costa e Silva
Edição: Mathias Carvalho

Desenho de época - nau possivelmente retratada como era Santíssimo Sacramento
O galeão "Santíssimo Sacramento" saiu de Lisboa, do seu porto no Tejo, dentre 50 embarcações mercantes da Companhia Geral do Comércio do Brasil, com a missão de protegê-las dos perigos humanos da travessia do Atlântico. Essa era a principal.

A bordo, quase mil almas; entre homens, mulheres e crianças vinha João Corrêa da Silva, governador nomeado da Bahia. No seu bojo, como era comum haver nos navios de guerra da época, se encontrava estanho e cobre para a ribeira das naus - o estaleiro da cidade de Salvador - além dos pertences pessoais dos passageiros.

Transformava-se o dia de nosso senhor de 5 de maio de 1668 em noite escura; aproximava-se o Galeão lentamente de seu destino, a travessia havia sido sem incidentes; na tripulação e nos passageiros - depois de uma longa, desconfortável e perigosa viagem - percebia-se, nos seus rostos e espíritos, um sentimento dúbio de alívio e a ansiedade de chegar; o querer pôr os pés em terra firme; vontade de continuar a viver; para muitos o começar, nesta terra distante, a realizar o sonho sonhado que traziam na bagagem.

O vento soprava forte, do sul, o mar um pouco duro, mas eles chegavam. Ao longe, aqui e acolá fracas luzes, eram as casas de pescadores na orla. O cheiro de terra penetrava forte nas narinas, era peculiar, era como um reencontro com o que havia sido deixado para trás e, ao mesmo tempo, revelava algo de novo. Longe, ainda, Salvador, terra do Senhor do Bomfim, na Baia de Todos os Santos.

Este sentimento de chegança não era para ser; todavia, disso ninguém ainda suspeitava. O Galeão desviava-se perigosamente de sua rota normal e segura; lentamente, em direção ao Banco de Santo Antonio, ao encontro do Criador, ia quase todo pano.

Dizem uns que foi imperícia; outros negligência; pode muito bem ter sido imprudência dos pilotos do galeão que, na ânsia de chegar, não corrigiram o curso da embarcação e o levaram, sem atinar, ao seu derradeiro destino. O fundo do mar.

Muitos passageiros e tripulantes dormiam, sonhando sonhos de terra firme, de futuro.

Foi assim, nesta noite escura, que, com uma pancada, se instalou o pânico. O Galeão bateu. Bateu de repente e de encontro ao Banco de Santo Antonio; o inferno subiu a terra, naquela noite, às margens do litoral atlântico da idade de Salvador. Para muitos o encontro com o Criador seria inevitável
.

Não se sabe como, mas se soube que uma tragédia estava acontecendo. O governador em exercício, Alexandre de Sousa Freire, mandou tantas "embarcações rápidas e pessoas hábeis de navegação que se encontravam na Ribeira" em socorro da carga que se perdia e das almas que iriam, por fim, encontrar o momento do julgamento divino.

A distância era grande; a velocidade das embarcações de salvamento era pouca. Somente com os primeiros dourados da alvorada puderam chegar.

"Acharam feita em pedaços a nau, e grande número de corpos, uns ainda vivos, vagando pelos mares, outros jazendo já mortos nas areias..., e só salvaram as vidas algumas pessoas, às quais pôs em salvo a sua fortuna e a diligência dos pescadores daquelas praias..., e algumas poucas que sobre as tábuas piedosamente despedaçadas no seu remédio se puseram em terra.

" Não se sabe ao certo quantas almas encontraram o Criador naquela noite; uns dizem 400 outros dizem mais de 900; sabe-se que, por misericórdia divina, sobreviveram apenas 70.


O que é que a Bahia tem?

Estudo de canhões encontrados no naufrágio
Foram as mãos de Yemanjá as únicas a acariciar aquelas riquezas até que, em 1974, após tanto tempo perdidas para a natureza, durante um mergulho de caça, o galeão foi achado, na posição 13º02'18"S e 30º30'14"W. Euforia, tesouro!

O que dele restava, dizem, se encontrava a uns 15 metros de profundidade, ao lado de um precipício por onde o casco deslizou indo repousar numa profundidade entre 25 a 30 metros por 306 anos.

Diversos mergulhos foram feitos para se fazer a recuperação dos "tesouros" tanto de forma legal quanto ilegal. Foi apreendida uma carga de 6 canhões de bronze que iriam ser transportados para fora !

Estes fatos levaram a organização por parte do Ministério da Marinha de uma expedição exploratória detalhada e sistemática utilizando o Navio de Salvamento Submarino Gastão Moutinho. O arqueólogo consultor desse processo foi Ulisses Pernambucano de Mello Neto no período de 1976 e 1978, outras explorações foram realizadas de 1982 a 1983.

Nesse período se obteve um grande número de informações e se recuperou uma grande quantidade de objetos, dentre eles :

-34 canhões de bronze e 8 de ferro fundido (os datados variando de 1590 a 1653);
-01 astrolábio de bronze datado de 1624 e assinado "Góis";
-compassos de cartear em bronze;
-grande e variado sortimento de cerâmicas (faianças), incluindo aparelhos inteiros (como o do General Francisco Corrêa da Silva);
-imagens sacras em terracota e chumbo;
-moedas de prata (portuguesas e espanholas);
-medalhas;
-dedais de latão;
-bacias e caldeirões.

Alguns desses objetos podem ser vistos no Museu do Farol da Barra ! Vale conferir !

Texto adaptado de artigo de Marcelo de Ferrari


Serviço:


Mais informações sobre o naufrágio:
www.naufragiosdobrasil.com.br
www.submerso.com.br

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