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Exposição

"Titanic e os Grandes Naufrágios"

Memorial do Imigrante - em São Paulo - apresenta exposição sobre naufrágios famosos.

Por: Mathias Carvalho

O paulistano "da gema" figura, na minha opinião, entre os verdadeiros apaixonados pelo mergulho. Muito mais do que qualquer morador de cidades litorâneas, o paulistano tem que mover mundos e fundos (do bolso) só para chegar perto do mar - acreditem, é uma logística cruel (quem já não perdeu a viagem por ter se esquecido daquela maldita pecinha do equipamento?)

Mas, durante o mês de julho, o paulistano vai se sentir um pouco melhor - foi aberta uma exposição, no museu Memorial do Imigrante, que reúne informações e material de pesquisa sobre naufrágios de uma forma pouco convencional - do ponto de vista dos passageiros que estavam embarcados, tanto sobreviventes como vítimas.

Quem pensa em imigrantes naufragados, deve se lembrar imediatamente de Leo Di Caprio esvoaçando feito uma libélula na proa do Titanic, o exemplo mais conhecido deste gênero de tragédia marítima. Mas, fato pouco conhecido do próprio brasileiro, nós também tivemos nossa quota de imigrantes vitimados em acidentes no mar. Infelizmente.

Registros originais de hospedaria
Organizada pelo prof. Marco Antonio Xavier, historiador e entusiasta, a exposição reúne diversas curiosidades, tais como o registro original de hospedaria que lista os sobreviventes do naufrágio "Princesa Mafalda", um paquete que naufragou em 11 outubro de 1927, vindo de Gênova com destino final a Buenos Aires, trazendo consigo diversos imigrantes europeus.

Nos seus derradeiros momentos, morreram 314 passageiros, a maioria da terceira classe.



Final infeliz de uma dura viagem

Passageiros de terceira classe eram, normalmente, trabalhadores que deixaram suas casas na Europa e Ásia para tentar a sorte no novo mundo - o Brasil de 1930 oferecia oportunidades de trabalho para estas pessoas, que constituem hoje as origens das famílias de imigrantes da cidade de São Paulo, entre outras.

Rota da Ásia para a América do Sul
Um destes grupos de imigrantes embarcou no Princesa Mafalda, esperançosos pela nova vida que os aguardava - infelizmente, para a maioria deles, o que os aguardava era a morte. O paquete nunca chegou a seu destino, de vido a falha mecânica ocorrida durante a viagem. O naufrágio ainda não foi localizado. (Leia mais sobre a tragédia aqui)

Não era fácil para quem viajava nestas condições; os porões destas embarcações, quando não transportavam carga, eram "equipados" com catres para passageiros deste tipo, os quais passavam dias limitados à estas dependências, comendo a mesma refeição todo dia e sem as regalias que os mais privilegiados desfrutavam - para os orientais, estas viagens poderiam durar até mais de 50 dias!

O professor Xavier nos concedeu uma entrevista:

WET: Esta é uma exposição que deve ter dado trabalho - como o senhor conseguiu reunir este material?
PX: A maior parte do material, isto é, as imagens e os dados (textos) foram retirados da Internet. Na verdade, o problema maior é conseguir "filtrar" os dados e retirar as informações "erradas" (muitas vezes são cópias de um mesmo erro, omissão ou falha) e as duplicadas, além de buscar o que realmente interessa ao nosso público; por exemplo: há um site com os personagens do filme Titanic em "massinha" (uma técnica de animação), mas o que esse material acrescentaria ao tema (do trágico destino de milhares de imigrantes)?


Professor Xavier
WET: Por quê, dentre tantos exemplos de naufrágios na nossa costa, o Princesa Mafalda e o Princ. das Astúrias foram escolhidos para exemplificar a saga de nossos imigrantes? Existiriam outros exemplos?
PX: Escolhemos estes dois exemplos pelas características históricas e pela divulgação que tiveram em suas épocas. O Principessa Mafalda ficou conhecido pela cobertura que a imprensa deu ao acontecimento, resultado do interesse dos imigrantes em saber dos fatos e das "histórias" que se contavam, pois haviam muitas pessoas à bordo do Principessa que eram parentes ou conhecidos dos imigrantes aqui de São Paulo, especialmente dos italianos.
Já o Príncipe de Astúrias comoveu pela situação em que aconteceu o acidente e das inúmeras versões e histórias nebulosas que se contavam a respeito das causas do naufrágio, além do número enorme de vítimas.
Temos registro de alguns "desastres" de transoceânicos que transportavam passageiros, desde 1854 até 1957, que fizeram a rota do Atlântico Sul. Do total de 75 naufrágios, colisões, incêndios, desaparecimentos e afundamentos, há registro de 1.748 vítimas, mas nos acidentes na costa brasileira (22 destes naufrágios) morreram 721 pessoas, 718 "só" no Principessa e no Príncipe (as outras vítimas foram do Dart - 1, em 1884 e do Guadiana - 2, em 1885, ambos da Royal Mail). O maior acidente na rota do Atlântico Sul foi do vapor Sirio (Navegazione Generali Italiana) em 1906, numa viagem de Gênova para Buenos Aires; morreram 442 pessoas nas proximidades da costa espanhola.



WET: O senhor vê algum empecilho moral no mergulho em alguns destes naufrágios (eg. Principe das Astúrias), talvez por poderem ser considerados "cemitérios de imigrantes"?
PX: Pessoalmente, não vejo problema algum no mergulho de naufrágios que tiveram vítimas. Seria como visitar um cemitério, tirar fotos, comentar esta ou aquela inscrição ou a arquitetura de um túmulo (aliás, um "hobbie" que faço em minhas viagens). Acho que o mais importante é a atitude que as pessoas devem ter nestas situações, respeitando a memória daqueles que estão "enterrados" ali, não deixando lixo ou tentando retirar objetos "pessoais". Ballard, o pesquisador que "descobriu" o Titanic, tentou não mexer em nada do navio e deixou uma placa em homenagem às milhares de pessoas que morreram no naufrágio; um gesto simples, que demonstrou uma reverência pela memória daquelas pessoas. Já a empresa Titanic Inc. brigou na justiça pela "marca" Titanic e pela posse de objetos e imagens do navio, "correndo o mundo" com uma exposição (caça-níquel) de objetos retirados do naufrágio, como roupas, óculos, malas, canecas, etc.
Os arqueólogos também fazem exposições com objetos e, até mesmo, com restos humanos (ossos fossilizados ou não, múmias, restos de órgãos, etc), mas devem seguir algumas regras éticas e morais nesses casos. Não sei se há alguma "convenção" a este respeito no que diz respeito aos mergulhadores. Seria uma discussão interessante, mas sempre limitada aos valores morais e atitudes de cada indivíduo.



Maquete do Titanic
WET: O senhor parecer ser muito habilidoso ao construir maquetes dos navios utilizadas na exposição - o que recomenda para quem estiver interessado em começar este hobby? Considera o mesmo importante para o estudo de naufrágios?
PX: A recomendação que dou aos iniciantes do plastimodelismo (modelos "comerciais" em plástico injetado) e do nautimodelismo (que incluem réplicas em madeira, feitas a partir de plantas em escala) é de começarem com modelos bem simples (tipo "snaptite", por exemplo, que não precisam de cola) e terem "muita paciência". Com o tempo o modelista aprende a pesquisar, a dar importância aos detalhes, enfim, a conhecer o modelo que irá montar antes mesmo de separar as peças da "árvore" (estrutura a que estão presas as peças e acessórios). Outro conselho é dimensionar o espaço e tempo necessários; minha coleção tem aproximadamente 200 modelos (navios, aviões, tanques, figuras, espaçonaves, etc), em diferentes escalas, dos quais somente 10% estão montados e "espalhados" entre minha casa e minha sala no Memorial; eles me tomaram uma média de 60 horas de montagem cada um, ao longo de quase 6 anos, ou seja, muitos "não sairão da caixa" e ficarão para meus herdeiros. Plastimodelistas, em geral, são "fanáticos" em possuir os modelos, mas levam anos decidindo as versões e as possibilidades de dioramas. Falando em dioramas (reproduções de cenas e acontecimentos relativos aos modelos), eles são uma das formas mais "avançadas" de modelismo. Para esta exposição, usei 2 modelos do Titanic que "renderam" dois dioramas (o navio no "momento final" do naufrágio e como ele se encontra atualmente no fundo do mar) e um modelo "estático" (uma montagem mais simples e sem detalhes adicionais).
Para montar o diorama do Titanic "afundado" (proa) foi necessário estudar as fotos tiradas pelos submarinos e compará-las aos modelos de outros modelistas (coisa "impensável" antes da internet). Desta forma, consigo reconhecer muitos detalhes dos destroços e também saber das dificuldades que devem ser enfrentadas pelos pesquisadores.
No caso de mergulhos em naufrágios, acredito que os dois "lados da moeda" possam ajudar um ao outro. Se o mergulhador/explorador conseguir visualizar, em 3 dimensões, o local a ser pesquisado, ele terá uma vantagem na busca de objetos ou na tomada de fotos, com menor risco de acidentes (isso é, se ele não se deixar levar pelo fatídico "eu sei o que estou fazendo" ou "conheço isto como a palma de minha mão"), enquanto o modelista criará réplicas cada vez mais exatas do navio (em determinado período).
De qualquer modo, será sempre preciso que alguém se aventure a descobrir e "mapear" o naufrágio. Mergulhadores morrem nestas tentativas, enquanto o máximo que acontecerá com um modelista será uma simples intoxicação pelos vapores da tinta ou da cola.



WET: Sua exposição foi muito bem montada - veremos uma segunda versão, no futuro?
PX: Acho difícil uma "nova versão" da exposição por duas razões:
1 - este é um tema que está limitado em função das necessidades e expectativas do nosso público; é uma exposição temporária, que lida com um assunto específico e delimitado. Devemos abrir espaços e concentrar esforços (devido as limitações orçamentárias e de pessoal) em promover as "visões e revisões" históricas de vários aspectos do processo imigratório para nosso país que, de uma forma ou outra, continua até os nossos dias.
2 - ela (a exposição) foi projetada de forma a poder intinerar por outros espaços, atingindo um público diferenciado e que não teve condições ou tempo de visitá-la no Memorial do Imigrante.
Aproveito a oportunidade para avisar às instituições interessadas em sediar esta exposição para entrarem em contato conosco pelo e-mail imprensa.mi@plugnet.com.br

Agradeço ao pessoal responsável pelo WET por esta divulgação de nosso trabalho e espero que num futuro próximo (quando as tarefas no Memorial permitirem) possa dedicar parte do meu tempo "livre" a um curso de mergulho... de qualquer modo, nos veremos em algum naufrágio pela costa deste nosso Brasil. Até lá!.


WET: O prazer foi nosso, professor. Um grande abraço da equipe WET!

 

Serviço:


Responsável: Prof. Marco Antonio Xavier
Duração: de 01 de junho até 03 de agosto de 2003, em São Paulo
Endereço: Rua Visconde de Parnaíba, 1.316 – Móoca; próx. ao metrô Bresser, linha Leste–Oeste
Maiores informações: www.memorialdoimigrantesp.gov

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