Técnicas
e equipamentos
Resgate
no Cedarville
Situação
crítica ocorrida durante um mergulho em naufrágio,
contornada pelo bom treinamento dos mergulhadores envolvidos.
Por:
Dan
Leigh, da Dan Communications
Edição
e tradução: Paulo
Gorab
Agradecimentos:
Patricia
Caetano; Departamento Internacional - DAN
 |
| O
Cedarville |
No
verão de 2000, no Estreito de Mackinac, região dos Grandes Lagos,
entre Canadá e EUA, onde os Lagos Huron e Michigan se encontram,
um mergulho de rotina transformou-se em uma experiência incomum,
para dois mergulhadores que mal tinham entrado num naufrágio
e outros mergulhadores bem preparados que providencialmente
se transformaram numa equipe de resgate. O episódio terminou
bem. Os dois mergulhadores sobreviveram e todos têm uma estória
de resgate pra contar.
Nesse domingo em particular, quatro barcos de mergulho estavam
poitados no naufrágio do Cedarville, um cargueiro de
aço de 179 metros, que repousa em seu costado a uma profundidade
de 32 metros. Várias poitas amarradas ao casco permitiam
que alguns barcos estivessem parados sobre o naufrágio
ao mesmo tempo.
O canadense Dave Mekker, mergulhador de cavernas e membro da
DAN (Divers Alert Network) estava a bordo do Sand Dollar, com
outros companheiros. Ele se lembra que o tempo não prometia
grandes mergulhos naquele dia: encoberto, com chuva, ventos
fortes e trovões. Depois de alguma indecisão ainda
no cais, e uma olhada no ponto de mergulho, todos decidiram
equipar-se e cair na água.
A
visibilidade variava de 4 a 6 metros no fundo e 10 a 12 perto
da superfície. Equipados com lanternas, mas sem carretilha,
dois mergulhadores do Intrepid, um dos barcos de mergulho presentes
na locação, penetraram no Cedarville através
da casa de máquinas e logo se perderam no interior do
barco devido as partículas em suspensão (silt),
que prejudicavam ainda mais a visibilidade. Para atrair a atenção
de outros mergulhadores, eles acenavam por uma das vigias. Sem
sucesso, eles começaram a bater com as lanternas no casco.
O mergulhador de menor porte, um divemaster, retirou seu equipamento,
passou-o através de uma das gaiutas do navio, e pelo
mesmo caminho, seguiu para a superfície. Chegando lá,
gritou: "Meu dupla está preso dentro do naufrágio".
Conseguindo
ajuda
A 60 metros de distância, a tripulação do
Intrepid estava ocupada ajudando os mergulhadores a subirem
a bordo depois do primeiro mergulho. Seu capitão, Mark
Kistner - membro da DAN desde 1995, logo que percebeu o que
ocorria, percebeu que sua primeira prioridade deveria ser providenciar
ar para o mergulhador em apuros, já que havia aproximadamente
35 minutos que ele estava no fundo. Kistner, sem hesitar e sem
roupa de mergulho, desceu ao naufrágio para prestar ajuda,
munido de um scooter e um cilindro de ar de 40 pés cúbicos.
"Eu estava feliz por ter um scooter e poder achar o
mergulhador rápido. Quando cheguei, vi sua cabeça
e um braço acenando para fora da escotilha do navio,
fazendo sinal de que não tinha mais ar." Através
da janela, Kistner compartilhou seu ar com o mergulhador preso.
Enquanto isso, na superfície, o Virtual Reality, um dos
barcos de mergulho, esperava dois de seus mergulhadores
chegarem à superfície e o Sand Dollar se preparava
para mudar de poita, para realizar o segundo mergulho na parte
intermediária do casco do navio.
Quando o mergulhador acenou pedindo ajuda, Jim Stayer, capitão
do Sand Dollar, avisou por rádio todas as embarcações
no local que havia uma emergência e deslocou seu barco
em direção ao mergulhador para embarcá-lo.
Uma vez a bordo, o mergulhador disse que seu dupla estava preso
em um dos corredores dianteiros do naufrágio.
Delineando um Plano de Resgate
A
essa altura, os mergulhadores do Sand Dollar, liderados por
Stayer, começaram a traçar um plano de resgate.
Foi decidido que, após um intervalo de superfície
de apenas 17 minutos, Mekker e Anthony DeBoer, ambos mergulhadores
de caverna, iriam penetrar o naufrágio, levando um cilindro
de ar de 80 pés cúbicos para o mergulhador preso.
Simultaneamente, Mike Apple e Steve Orht, mergulhadores avançados,
que haviam acabado de chegar à superfície, permaneceriam
na água com mergulhadores de apoio, ajudando no resgate.
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| Croqui
do naufrágio |
Apple,
sem perda de tempo, desceu ao naufrágio carregando um
cilindro extra de 80 pés, liberando assim Kistner, que
estava compartilhando ar com o mergulhador preso havia algum
tempo, através da escotilha. Ele se recorda que teve
que apoiar o mergulhador através da abertura, para que
ele não afundasse ou deslizasse para dentro do naufrágio.
"Ele deu dez longas respiradas no regulador que eu havia
levado", recorda Apple. "Eu o acalmei, dizendo que
estava tudo sob controle".
Logo depois que Mekker e DeBoer desceram, Donatto colocou
o Virtual Reality lado a lado com o Sand Dollar para transferir
um cilindro de oxigênio para alimentar o sistema de compartilhamento
que Stayer estava montando com seu próprio suprimento
de oxigênio. Os capitães temiam que os mergulhadores
necessitariam algum tempo de descompressão, de modo que
esse sistema teria seis reguladores com oxigênio puro
a 3.9-4.5 metros de profundidade, para acelerar a parada de
descompressão que àquela altura se fazia necessária.
O mergulhador preso no naufrágio já tinha mais
de 1 hora e 10 minutos de tempo de fundo.
Entrando no Naufrágio
DeBoer não havia planejado penetrar no naufrágio
naquele dia, devido ao mau tempo, e havia deixado seu equipamento
no carro. Para penetrar no naufrágio ele usou uma lanterna
reserva e uma carretilha emprestados. Quando os dois entraram
no navio, primeiramente verificaram a posição
do mergulhador e se ele tinha ar; então começaram
a procurar uma maneira de alcançá-lo.
Donato explica: "O naufrágio estava numa posição
invertida, o que fazia com que eles tivessem que descer a quase
30 metros de profundidade para achar uma entrada para a sala
de máquinas. Eles enveredaram por um caminho pelo qual
nunca tinham entrado antes, com visibilidade quase zero e subiram
até ver as escotilhas, e eventualmente acharam o mergulhador
a 18 metros de profundidade."
Mekker
guiou o mergulhador puxando-o pela mão, através
da linha guia, com DeBoer os acompanhando e enrolando a carretilha,
até eles saírem do navio e alcançarem as
poitas onde estavam os navios. Mekker e DeBoer chegaram a superfície
com as boas notícias, enquanto o mergulhador resgatado
fazia a descompressão com Apple. A bordo do Sand Dollar,
o mergulhador que havia se safado sozinho do naufrágio,
já havia começado a respirar oxigênio puro,
administrado por Maria Bellantino, membro da DAN com treinamento
em Oxygen Provider. Ele consumiu todo oxigênio do cilindro
e não apresentou sintomas de doença descompressiva.
Steve Orht, que atuava como homem de ligação entre
os mergulhadores e os barcos, submergiu até eles com
uma plaqueta comunicando que havia oxigênio para descompressão
aos 3 metros. Percebendo que os mergulhadores não conseguiriam
localizar o oxigênio sozinhos, Mekker e DeBoer submergiram
de novo, com uma carretilha ligando o O2 aos mergulhadores.
Pouco depois, todos estavam na superfície, sãos
e salvos.
Donato, que ajudou a planejar o resgate e monitorou toda a operação,
complementa: "O Sand Dollar e o Virtual Reality são
equipados com grandes cilindros de O2 com sistemas que possibilitam
o consumo na água, para acelerar longos períodos
de descompressão. Os dois cilindros foram postos em uso.
O mergulhador preso tinha um bom período de descompressão
devido ao seu longo tempo de fundo, o que podia ser percebido
consultando seu computador de mergulho. Os outros mergulhadores
precisaram de algum tempo de descompressão, já
que faziam o segundo mergulho, de maneira não planejada.
Nós fornecemos o O2 para eles aos 3 metros de profundidade".
Desorientação
Durante o incidente, a DAN foi consultada sobre os procedimentos
sobre como tratar o mergulhador que se safou sozinho. A bordo
e exausto, ele recebeu O2. Dan Nord, Diretor de Serviços
Médicos da DAN, recebeu o chamado e fez um levantamento
dos sintomas. A informação que recebeu era de
que não havia nada de anormal. Diante dessa resposta
Nord recomendou que o mergulhador passasse por uma minuciosa
avaliação médica, executada por um médico
hiperbárico. Ele também demonstrou alguma preocupação
sobre o fato de que a administração de O2 pudesse
ter sido prematura.
"Quando alguém sem sintomas aparentes de doença
descompressiva recebe O2, pode sofrer um atraso na manifestação
dos sintomas", explica Nord. Atrasos no tratamento podem
complicar o gerenciamento da doença descompressiva e
torná-la mais difícil de tratar. A administração
de O2 100% dá início a uma fase do tratamento,
que depois deve ter continuidade com uma avaliação
médica cuidadosa para detectar a presença de sinais
súbitos da doença ou sintomas. Tanto que o mergulhador
consultou o Hotline de Emergência de Mergulho da DAN mais
tarde, no mesmo dia, relatando sintomas de uma possível
doença descompressiva. Eu recomendei que ele fosse examinado
no mesmo lugar onde mais tarde recebeu tratamento numa câmara
hiperbárica".
Todos os eventos desse impressionante mergulho e do bem sucedido
resgate ocorreram em menos de 30 minutos. Mekker pondera: "No
próximo ano, nos precisamos voltar a explorar o Cedarville
sob condições diferentes".
Reprodução autorizada: Divers Alert Network |
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