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Naufrágios famosos

O naufrágio do Utrech

Foco do conflito entre Portugal e a Holanda, a costa do Brasil foi palco de uma batalha feroz pela soberania da colônia.

Por: Zilan Costa e Silva
Edição: Mathias Carvalho

Gravura de época - abordagem
Era o ano de nosso senhor de 1648, e em 6 anos terminaria a ocupação holandesa no Brasil; o governo de Portugal, recentemente separado da Espanha, se engajava na luta pela expulsão dos invasores.

As batalhas eram cruéis e sangrentas, tanto em terra quanto no mar.

Com a maré partia, em 22 de setembro, de Recife, para entrar na história, uma esquadra da Geoctroyerde Westindische Compangnie. Eram 7 navios e aproximadamente 800 homens; era o comandante o Almirante holandês Witte Corneliszoon de With. O seu objetivo: encontrar, atacar e destruir posições e embarcações portuguesas. Nenhum de seus homens duvidava, todos receberiam seu quinhão e ardorosamente confiavam no seu sucesso.

No sexto dia, andavam próximos à entrada da baia de Todos os Santos, à boca do rio Matoim, bloqueando efetivamente a Armada Real que, depois de uma longa estadia inativa em Salvador, contava com 3 navios operacionais.

Não podemos imaginar as batalhas daquela época como o apertar de botões da moderna batalha naval; à época, exigia-se dos comandantes e das tripulações verdadeiro conhecimento de marinharia; navios a vela impunham aos contendores um regime especial de ações e uma estratégia que incluía o sentir das marés e do vento. A batalha se desenrolava em câmara lenta.

Começada, a perseguição era um verdadeiro exercício de estratégia e paciência; as tripulações tensas se preparavam, os canhões eram municiados e, como gato e rato, a batalha se desenvolve ao sabor dos ventos e da maré. A experiência adquirida pelos holandeses, depois de anos de batalhas e entreveros, permitiu o desenvolvimento de algumas estratégias: Provavelmente andavam os holandeses com seus navios mais ao mar e a barlavento dos navios portugueses, o Comandante, possivelmente deu ordens no sentido de se evitar o combate à abordagem, procurando obter êxito exclusivamente através do uso da artilharia.

Mas, confiantes, partiram os holandeses para a caçada. A estratégia simples. Primeiro os navios menores e mais velozes do que os galeões portugueses para se aproximar – o quê levariam o dia inteiro - os galeões tomando a evasiva, apesar de bem armados, ronceiros.

As tripulações se viam ao longe, quase olho a olho, se preparavam para o embate iminente. Podemos nos perguntar que pensamentos percorriam as cabeças daqueles homens ? Quantos seriam sacrificados e verteriam seu sangue para adoçar as mesas européias e, assim, satisfazer a necessidade de lucros da exploração do açúcar ? Quantos ?

As naus holandesas, apesar de menores, eram mais andejas, bolinavam melhor. Em conjunto, os navios holandeses dispunham de mais canhões e de maior calibre. Convinha, portanto, aos holandeses evitar, a todo o custo, um combate à abordagem, em que os navios portugueses, com castelos mais altos e guarnição mais numerosa, teriam vantagem. Precisavam resolver a batalha através de um duelo de artilharia, à distância.

A frota de Maurício de Nassau
O nível de tensão aumenta, depois de algum tempo, os navios holandeses chegam ao alcance de tiro e começa o ribombar incessante dos canhões a todo vigor, de parte a parte. Tiro após tiro, zunindo pelo horizonte, cada vez mais perto, mais perto. Ambos os lados desejavam destruir o velame e a mastreação do outro; depois, por certo, partiriam no encalço do que vergasse para, com arpéus, aferrar-lhe o bordo, metendo-lhe para dentro a maior quantidade disponível de homens, que travariam terrível combate corpo a corpo, a tiro de mosquete e à arma branca.

Partiram em perseguição do galeão Nossa Senhora do Rosário os navios holandeses Utrecht, comandado por Jacob Pauwelszn Cort, e Huys van Nassau. Ambos tinham 120 pés de comprimento com mais ou menos 120 almas a bordo. 

Os navios holandeses, menores e mais rápidos, conseguiram obter posições favoráveis e atacaram incessantemente e com ferocidade. Os portugueses respondem utilizando-se de um maior número de bocas de fogo.

Todos os navios empenhados em duelo de artilharia sofrem avarias mais ou menos importantes no casco e na mastreação, com um número maior ou menor de mortos e feridos, tudo de acordo com os planos humanos e desígnios divinos, e, ainda, em conformidade com a sorte de cada um.

Deste furioso duelo de artilharia, travado a distância com várias bocas de fogo, resultou pesadamente bombardeado, sem velame e mastreação, enfim condenado, o Nossa Senhora do Rosário.

Frota holandesa - chegada ao Brasil
Mas, no instante em que vinham os holandeses flanqueando o Nossa Senhora do Rosário, cada um deles por um bordo, para lançar arpéus, ainda sob fogo de artilharia de curta distância; o Capitão português, com grande valentia, usando de grande perícia na manobra do navio, obedecendo ordens de sua Majestade, Rex Portugalis, resolveu, por bem, garantir sua honra e dignidade explodindo o galeão no momento em que pudesse infligir o maior dano aos navios holandeses. Nessa triste contabilidade de guerra a conta era simples : um navio com tripulação portuguesa contra dois holandeses.

E assim ele o fez!

Ao longe, da cidade de Salvador, se via o desenrolar da batalha : o Nossa Senhora do Rosário atacado pelos dois navios holandeses; de repente, uma gigantesca fumaça negra encobre toda visão, um fortíssimo estrondo. É a explosão do paiol de pólvoras do Nossa Senhora do Rosário.

Minutos se passam, dispersada a fumaça...flutua, somente, a Huys van Nassau, ardendo sob o fogo do inferno, exemplo macabro do contra-senso humano
.

Com a explosão foi pelos ares o Utrecht, um navio construído pelo estaleiro naval de Amsterdã, em 1633, sob a Égide do almirantado de Amsterdã, com 28 canhões. Também explodiu em pedaços e afundou imediatamente, sua presa, o Nossa Senhora do Rosário. O Huys van Nassau, muito avariado pela batalha e explosão foi dar a praia, na ilha de Itaparica, de onde foi posteriormente resgatado, recuperado e utilizado pelos portugueses.

Nessa batalha, somente pelo lado holandês, 150 marinheiros perderam a vida. Foram resgatados 26 sobreviventes do Utrecht, entre eles o comandante Cort.

Nesse local, tocado apenas pela natureza, ele permaneceu mais de trezentos anos até ser encontrado pelo mergulhador Walter Andrade! O Nossa Senhora do Rosário, está perto.

As fontes dessa história são:

A.C. Anderson, List of men of war 1650-1700 (Cambridge, 1939)
C.R. Boxer, De Nederlanders in Brazilië (Amsterdam/Antwerpen, 1939)
Dados obtidos através da ajuda de Jac van der Avert do Instituto Histórico Naval da Marinha Holandesa em janeiro de 2000.


Serviço:


Mais informações sobre o naufrágio:
www.naufragiosdobrasil.com.br
www.brasilmergulho.com.br
www.submerso.com.br

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