Técnicas
e equipamentos
De
volta para o futuro
Novos
equipamentos nascem de idéias antigas.
Por:
Mathias
Carvalho
Colaboração:Aldo
Monteiro e Paulo
Gorab
Edição:
Mathias
Carvalho
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Delmar e eu, ao lado de suas aclamadas fotos sub - o veterano
e o lagostão? |
"Graaaande
Delmar, como é que vai?" - foi minha primeira
frase ao telefone, ao contatar meu primeiro instrutor de mergulho
autônomo, o Delmar Corrêa, quem na época
credenciava mergulhadores através da CMAS (via CBPDS
- Confederação Brasileira de Pesca e Desportos
Subaquáticos). Como era de se esperar, ele não
fazia a mínima idéia de quem eu era ou do que
diabos estava falando.
Mas, após alguns minutos de descrição
dos diversos eventos inusitados que marcaram meu primeiro
check-out (para os mais pacientes, detalhes neste texto),
ele finalmente se lembrou de quem eu era. Puxa, se foi em
1984 que eu fiz este curso, fazem bem uns 20 anos que estou
soltando bolhas por aí. Não tem jeito, todo
mundo entrega a idade, em algum momento...
Pré - História
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O "babador" - relíquia |
Meu
primeiro check-out foi uma tremenda confusão. Eu tinha
14 anos, não fazia a mínima idéia do
que estava fazendo, tudo tinha corrido bem na piscina mas,
para chegar ao litoral (destino: Ubatuba, ilha das Couves)
foi um sufoco. Para encurtar a história, estávamos
embarcados e a caminho do ponto de mergulho, quando encontramos
um infeliz banhista que não conseguiu voltar - e já
fazia uma semaninha...
A
embarcação lastreou o cadáver, que estava
boiando "todo inchado", e aguardamos ação
da guarda-costeira. Para mim, foi um divisor de águas
(trocadilhos à parte), pois eu tinha toda a razão
de desistir de mergulhar antes mesmo de começar.
Após uma duas horas baloiçando sob o sol do meio-dia,
com aquele "sweet" aroma nas ventas, finalmente tivemos
permissão para navegar até o ponto de mergulho.
Este foi um check-out "bem temperado", podem ter toda
a certeza!
Do back-pack viemos, para o back-plate
voltaremos?
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O back-pack ainda é comercializado, hoje com material
mais moderno |
O
que me lembro desta saída foi o equipamento que usamos.
Na época, o colete "BC" de hoje ainda não
era ainda conhecido no Brasil, e o que havia eram os "babadores",
uma mistura de colete salva-vidas com colete de mergulho que
era colocado em volta do pescoço e preso pelas costas
- e entre as pernas. Eu descobri como aquilo incomodava só
no final do mergulho, quando inflei o bicho e fiquei "pendurado"
pelas tiras do colete, dolorosamente finas ... quem já
usou um desses conhece a sensação desagradável.
O
cilindro era preso por um "back-pack", uma peça
de plástico injetado ou metal que se moldava nas costas,
com tiras para o mergulhador prender o equipamento no corpo.
O Mike-Nelson (Loyd Bridges) usava algo parecido. E qualquer
brasileiro com mais de trinta anos se lembra do seriado de TV
"Viagem ao Fundo do Mar", onde se usavam equipamentos
semelhantes em tomadas submarinas.
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| O
seriado "Sea Hunt", com o personagem Mike Nelson
- modelo de back-pack original |
Depois
vieram os coletes de "controle de flutuabilidade, os BCDs
(Buoyancy Control Device, "BC" para os iniciados),
como os conhecemos hoje em diversos modelos, desde os mais simples
até o "HUB", com regulador integrado.
Toda
esta evolução se deu no mergulho conhecido como
"recreacional" (ou recreativo, como alguns preferem
dizer), enquanto que entre mergulhadores técnicos os
equipamentos utilizados evoluíram de forma diferente.
O babador se tornou uma "asa" em forma de ferradura,
e passou a ser utilizado entre o cilindro e o suporte - que
antes era o back-pack, agora chamado de "back-plate".
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O back-pack utilizado nas filmagens do seriado "Viagem
ao Fundo do Mar" |
Existe
um conceito de que tudo o que se testa, aperfeiçoa e
utiliza no mergulho tido como técnico, mais tarde pode
vir a ser utilizado mo mergulho recreacional. A "asa"
de mergulho continua a ser um equipamento "técnico",
pois ela posiciona o mergulhador sempre na horizontal, e a distribuição
do equilíbrio do corpo na água não é
algo fácil de se dominar - mergulhadores recreacionais
teriam mais dificuldade ainda para aprender as técnicas
apropriadas de mergulho, que já não são
poucas.
Roberto Trindade, especialista em resgate e medicina do mergulho
, observa: "No que se refere ao uso da asa/célula
de modelos eclipse e pioneer Halcyon de 27 libs (e similare)
no mergulho recreacional com um cilindro simples S-80, penso
que é mais uma etapa de inovação para o
crescimento do mergulho recreativo, como foi a anos atrás
o surgimento do jacket X, o colar de cavalo (babador)".
Novidades para turistas
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Teste: flutuabilidade sem estressar |
Alguns
fabricantes, visando este mercado, estão desenvolvendo
esse modelo que pretende ser mais adequado para quem mergulha
sem grandes compromissos - e pode ser utilizado com o "cilindro
simples", de 11 litros, aproximadamente (o S-80), enquanto
que as asas tradicionais são utilizadas com cilindros
duplos (algo indispensável para mergulhadores técnicos).
A grande vantagem, dizem alguns, é que o back-plate (feito
em aço inoxidável, por exemplo) elimina o uso
do cinto de lastro convencional, aliviando a pressão
na coluna do mergulhador.
Segundo Roberto Trindade: "A eliminação do
lastro na cintura, dado o uso do back-plate de aço inox,
acaba sendo vantajoso para o mergulhador, já que ele
melhora seu ponto de equilíbrio e ponto de flutuabilidade,
além de eliminar um importante fator de lesão
por esforço repetido no mergulho, que é o lastro
na cintura.
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Pablo, da Seasub: colecionador |
A
longo prazo, por provocar uma alteração na posição
anatômica da coluna vertebral, o mergulhador - principalmente
quando estiver hiperlastreado - termina por sofrer compressões
nas vértebras e nos discos intervertebrais, acarretando
em possíveis lesões que merecerão atenção
ortopédica".
"A
asa para cilindros s-80, o modelo padrão das escolas,
ajuda o mergulhador a se posicionar na água, minimizando
o arrasto e causando menos fadiga ao mergulhador" diz Pablo
Varela, dono da importadora Seasub, e representante da marca
Halcyon no mercado brasileiro.
Algumas escolas já estão utilizando este modelo
de asa com alunos, oferecendo os dois modelos (asa e BC) para
o aluno experimentar e utilizar.
Luiz Augusto, da escola Aquadive de São Paulo, explica:
"Escolhemos este equipamento para começar a trabalhar
com uma configuração moderna e atual, que proporciona
mais conforto e segurança para os alunos. As suas principais
vantagens são melhor posicionamento do mergulhador na
horizontal, mais compacto, uso de menos lastro, facilmente adaptável
para todos os tamanhos de alunos".
Opiniões divididas
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Marcus Werneck, da PDIC
Foto: Ary Amarante |
Existem
os que não acreditam que o novo modelo de asa deva ser
utilizado com mergulhadores recreacionais. Lúcio, da
Scubatec, adverte: "Existe a possibilidade de um aluno,
sem experiência, ter dificuldade em se manter verticalmente,
na superfície, pois a asa tende a manter o mergulhador
na posição horizontal. Ademais, o colete BC é
muito mais confortável, e alguns modelos vêm com
lastro integrado, dispensando o cinto também".
Trindade opina sobre o uso deste equipamento como adequado para
mergulhos especializados: "No que se refere a mergulhadores
mais experientes e que buscam adequação técnica
para mergulhos mais complexos, como por exemplo o mergulho em
naufrágios, não resta dúvidas que este
equipamento é vantajoso, com relação a
melhora da performance, do Trim, do controle da flutuabilidade,
bem como na configuração de equipamentos".
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Roberto Trindade |
Luis
tem opinião diferente: "Já fizemos todos
os testes com mergulhador consciente e mergulhador inconsciente,
e a pessoa não é jogada de cara na água".
E
complementa, reforçando a teoria por trás da sua
opção de uso: "O que eu acredito é
no Sistema DIR e não somente na utilização
de célula, logo quem utilizar apenas a célula
e não utilizar o Sistema DIR como um todo, não
terá grande vantagem pois a utilização
de outros equipamentos, tais como mangueiras customizadas, também
fazem parte desta evolução".
Marcus Werneck, responsável pela certificadora PDIC,
comenta: "Se for usado o desenho de asa certo, com o adaptador
distanciando o cilindro, a posição na superfície
deixa o mergulhador bem equilibrado e mais fora d'água
que qualquer colete. O único colete que garante que o
mergulhador ficara em decúbito dorsal é o antigo
"horse colar" (o nosso babador); usando qualquer outro,
o mergulhador tem chance de ficar em decúbito frontal".
DIR
Para os que ainda não a conhecem, a sigla
"DIR" quer dizer "Do It Right",
ou "faça direito". Foi criado por
um grupo de mergulhadores de caverna chamado
(WOODVILLE KARST PLAIN PROJECT) e prega uma séria
de princípios que, segundo seus seguidores,
compõem a maneira mais correta e mais segura
de se realizar mergulhos, influindo desde o planejamento
e configuração de equipamentos até
como o mergulhador deve treinar o corpo para carregar
todo seu equipamento.
Muitos criticam esta metodologia por considerá-la
extremista e radical. Outros a consideram um grande
avanço na ciência do mergulho e muitas
das suas recomendações são
acatadas, total ou parcialmente, por diversas certificadoras
reconhecidas (ex. ,
).
Marcus comenta: "Apesar do sistema DIR ter
sido desenvolvido para o mergulho em cavernas, ele
trás varias vantagens para o mergulho recreativo
em águas abertas; menor arrasto, não
prejudica a respiração, melhora o
TRIM, oferece maior efetividade ao se doar ar/gás,
menor chance de equipamentos soltos, etc. O manômetro
o colete e o octupus também surgiram no mergulho
em cavernas antes de serem usados em águas
abertas".
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Testamos o modelo Pioneer, da Halcyon.
Foi colocar o pé dentro d'água que, ao vestir
o equipamento (aliás, algo muito fácil de fazer
na superfície) já senti que os ajustes de flutuabilidade
seriam mínimos. Realmente, ao preparar o equipamento,
parecia que aquela pequena asa não daria conta do meu
corpinho (1,90 m, 111 kilos), mas confesso que fiquei surpreso.
Estou acostumado a usar uma asa Explorer Halcyon de 55 L., com
cilindro duplo. Não foi fácil me acostumar a estabilizar
o corpo submerso com ela, e esperava a mesma dificuldade usando
o modelo Pioneer.
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| MODELO:
PIONEER |
| MARCA:
HALCYON
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| Tamanho |
27
libs |
| Facilidade
de montagem |
 |
| Uso
/ Flutuabilidade |
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| TRIM
/ Equilíbrio submerso |
 |
| 1
Equilíbrio na superfície |
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Nota final |
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(Legenda:
1 = ruim 2 = fraco 3 = médio 4 =
bom 5 = excelente)
1 - teste sem o uso do neoprene, que pode influenciar o resultado
obs: notas pessoais dadas após testes de uso pelo autor
Imediatamente, senti que a asa equilibrava perfeitamente meu
corpo e, submerso, conseguia fazer ajustes finos na flutuabilidade
usando apenas meus pulmões.
Em qualquer posição, quando submerso, consegui
ficar perfeitamente estacionário, seja na vertical ou
na horizontal. Nadando com pernada de rã, algo que me
acostumei a fazer quando comecei meu treinamento técnico,
fazia qualquer manobra com mais facilidade do que com minha
asa tradicional e, acredito eu, do que com o colete BC recreacional.
Show de bola.
Na superfície, entretanto, observei que a asa tende,
muito levemente, a tombar para frente quando o mergulhador está
posicionado verticalmente, mas nada que causasse cansaço.
É preciso levar em conta o fato de que testei a asa numa
piscina de água doce, sem o uso do neoprene (que já
dá uma flutuabilidade positiva ao mergulhador), o que
pode alterar a flutuabilidade do sistema em si (asa + backplate
+ restante do equipamento), especialmente se for utilizado lastro
adicional na configuração. Cada mergulhador terá
uma impressão pessoal diferente, e ajustará o
uso deste equipamento com a experiência de mergulho adquirida.
A profundidade de teste foi pequena, cerca de 5 metros, então
também é preciso verificar como esta asa se comporta
quando nos aproximamos dos limites de profundidade recreacionais.
Não usar lastro na cintura causa um aumento considerável
no conforto do mergulhador, e que pode eliminar uma fonte de
problemas em potencial ao se entrar e sair de um ponto de mergulho
(acidentes envolvendo lastros são analisados pela DAN).
Resultado: este é um equipamento que oferece conforto
e facilidade de manobra ao mergulhador, pelo arrasto minimizado
e a distribuição de lastro na configuração.
Cabe a cada um, e seus instrutores, adquirir familiaridade com
o mesmo e conhecer suas limitações e uso adequados
para os diferentes tipos de mergulho realizados.
Agradecimentos:
Roberto Trindade, pelo uso das instalações da Scuba, para
testes. - Pablo Varela, da Seasub, pela cessão de equipamentos
para testes. - Rodoberto da Narwhal /Moema, pela cessão de cilindros.
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